Sobre bactérias e humanos. Fritjof Capra em O Ponto de Mutação.

“A excessiva ênfase nas bactérias criou a ideia de que a doença é a consequência de um ataque vindo do exterior, em vez de um distúrbio do próprio organismo. Lewis Thomas, em seu popular Lives of a cell, fez uma vigorosa descrição dessa concepção errônea e tão difundida:
‘Ao ver televisão, temos a impressão de vivermos acuados, sob um risco total, cercados por todos os lados de micróbios sedentos de seres humanos, escudados contra a infecção e a morte graças unicamente a uma tecnologia química que nos permite continuar a rnatá-los antes que nos invadam. Somos convencidos a pulverizar desinfetantes por toda parte. (…) Aplicamos antibióticos potentes em arranhões leves e vedamo-los com tirinhas de plástico. O plástico é o novo protetor; embrulhamos os copos já de plástico dos hotéis em mais plástico e selamos os assentos dos sanitário como se fossem segredos de Estado, depois de esparzi-los com luz ultravioleta. Vivemos num mundo onde os micróbios estão tentando sempre atingir-nos, despedaçar-nos célula por célula, e só continuamos vivos às custas da diligência e do medo’.
Essas atitudes um tanto grotescas, mais notórias nos Estados Unidos do que em qualquer outra parte do mundo, são incentivadas, é claro, pela ciência médica, mas, também, de um modo ainda mais poderoso e eficaz, pela indústria química. Porém, seja qual for sua motivação, dificilmente encontrarão uma justificação biológica. É mais do que sabido que muitos tipos de bactérias e vírus associados a doenças estão comumente presentes nos tecidos de indivíduos saudáveis sem causar-lhes qualquer dano. Somente em circunstâncias especiais, que diminuem a resistência geral do organismo hospedeiro, é que eles produzem sintomas patológicos. Em nossa sociedade, é muito difícil acreditar-se nisso, mas a verdade é que o funcionamento de vários órgãos essenciais requer a presença de bactérias. Já está demonstrado que animais criados em condições totalmente livres de micróbios desenvolvem sérias anomalias anatômicas e fisiológicas
Da gigantesca população de bactérias da Terra, apenas um pequeno número delas é capaz de gerar doenças em organismos humanos, e mesmo essas são usualmente destruídas no devido momento pelos mecanismos de imunização do próprio organismo. Eis o que diz Thomas: “O homem que apanha um meningococo corre consideravelmente menos perigo de vida, mesmo sem quimioterapia, do que os meningococos que tiveram o azar de apanhar um homem”. Por outro lado, bactérias relativamente inofensivas para um determinado grupo de pessoas que adquiriram resistência a elas podem ser extremamente virulentas para outras que nunca estiveram expostas antes a esses micróbios. As catastróficas epidemias que flagelaram polinésios, índios americanos e esquimós, em seus primeiros contatos com os exploradores europeus, são um exemplo disso.”

Fritjof Capra em O Ponto de Mutação, 1980)

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