Não verás país nenhum… (Ignácio Loyola Brandão)

Li este livro em 1983 e o entendi como uma alegoria crítica à longa ditadura civil-militar que nos assolava desde 1964 e só iria acabar em 1985. Lendo-o de novo nestas férias, passei a vê-lo como uma distopia profética cuja realização está se dando agora.

Achei especialmente significativa esta passagem que copio para vocês:

“Foi quando se deu a punição ao cientista. Quero dizer, a primeira após os Abertos Oitenta. Penso que essa pena marcou o início de um novo tempo. Nestes últimos anos, saltamos rapidamente de um ciclo para outro. Mal nos acostumamos a um, precisamos mudar. Incessantemente. Fomos ingênuos. Como eu, muitos. Tínhamos nas mãos posições por meio das quais era possível, lentamente, instilar um gesto de lucidez, um pouco de consciência. Semente de inquietação. Alarme. Mesmo com toda a vigilância. Afinal, um professor em quem alunos confiam é muito mais que um pai.

Sim, aquele cientista protestou. Teve coragem. Quem lembra seu nome, hoje? Havia na universidade um livro negro. Intenso relato da perseguição que professores, pesquisadores, médicos, cientistas sofreram. Até o momento em que os registros não adiantaram. A exceção virou normalidade.

Convivemos com ela, nos habituamos. O cientista punido não me sai da cabeça. Eu estava no hall da universidade quando ele passou. Soube antes pelos noticiários da tarde. Ficou esperando, o reitor desceu com um comunicado para a sala dele. Saiu sem abrir uma gaveta, sem levar um só papel.

Ao passar por nós, no hall, parecia o mesmo homem de todos os dias. Nem a cabeça abaixada, derrotado. Nem erguida, sinal de orgulho e indiferença. Homem normal. Tinha acabado de perder os seus direitos. O de ensinar, o de circular, comprar, conversar com os outros. O de viver, enfim.

Eu estava chocado. Não fazia ainda ideia exata do que se abatera sobre aquele homem. (…) Dava aulas havia dezenove anos. Filhos e netos. Pouco mais e levaria vida tranquila. No entanto ele se ergueu. Sua voz indignada clamou. Contra o deserto.

Não calculávamos os resultados. A reação foi violenta. Deixou-nos confusos. (…) A punição daquele homem foi a chave que nos forneceram, o aviso.

Não a utilizamos. Levei alguns meses perplexo, até a vergonha tomar conta de mim. Senti que deveria ter atravessado o hall e me colocado ao lado do professor. Tivéssemos todos feito isso, algo poderia ter mudado. Os gestos decisivos faltaram em bons momentos de nossa história.

Dar as mãos simbolicamente. Penso muito nisso. Já se passaram tantos anos e ainda me imagino. Nós, juntos, diante da universidade. Ou aniquilavam todos, ou voltavam atrás. Permitimos. Não me conformo. Culpa que carrego. Ela me corrói. Nada pior que a memória do gesto não realizado.”

(Ignácio de Loyola Brandão. Não verá país nenhum.
São Paulo: Global, 2012, p. 43-44. 1ª edição digital.
Edição original é de 1981)

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2 comentários em “Não verás país nenhum… (Ignácio Loyola Brandão)

  1. NÃO VERÁS PAÍS NENHUM
    Ficção de Ignácio de Loyola Brandão previu o futuro, mas ele desconversa: ‘a realidade foi me copiando’

    “Não verás país nenhum” fala de um futuro quente, seco e desolado em que a Amazônia virou um deserto e o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, deu lugar a um estacionamento. Em um Brasil loteado, o governo nega a ciência e maquia dados, enquanto milícias armadas fazem as vezes de polícia. O realismo brutal da história do protagonista encontra respiros na sátira e na capacidade de Loyola de injetar na narrativa um talento típico do brasileiro: rir de si mesmo.

    https://tab.uol.com.br/edicao/ignacio-loyola-brandao/#page1

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  2. Ignácio de Loyola Brandão e as distopias reais

    “Se os grandes artistas são antenas que captam o espírito da época e iluminam suas complexidades nos mais diversos recônditos, Ignácio de Loyola Brandão foi um pouco além ao “prever” a figura de Bolsonaro, décadas antes. Em seu livro Não verás país nenhum, de 1982, há um capitão ligado a “milícias” que carrega parte do intestino numa bolsa atada à cintura. O romance mostra um futuro próximo em que a Amazônia virou um deserto, cientistas são perseguidos e não há água potável – as pessoas têm de reciclar a própria urina para beber.”

    https://revistacult.uol.com.br/home/ignacio-de-loyola-brandao-distopias-reais/

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