“Tábata, e o admirável mundo novo”. Por Dilso J. dos Santos

Tenho um amigo e colega de profissão, o professor Dilso J. dos Santos, que é um excelente escritor. Seu livro Desassossegados (SANTOS, D. J. . Desassossegados. 1. ed. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2016. 112p), que foi editado pela editora da UNISC e no qual ele reuniu seus Desassossegos, crônicas que foram publicadas numa coluna com este título num jornal da região, é uma leitura deliciosa. O Dilso andou tendo problemas nas escolas por conta de sua postura íntegra, transparente e engajada e, principalmente, pelo teor de suas postagens nas redes sociais. Agora ele anda sabiamente afastado das redes, num momento detox, mas continua escrevendo e mostrando para os amigos. Hoje ele mandou um texto que gostei demais e pedi autorização para publicar aqui. Então lá vai:

14971203_1238740296196626_136300053_n“Tábata, e o admirável mundo novo”.

Dilso J. dos Santos

Agora que tenho bastante tempo de sobra, destemperei a cama, tentei afastar os pensamentos que me prenderam a ela e levantei para fazer um chimarrão. Então pus a água ferver ao tempo que, para escapar dos fantasmas, esperei de pé até a chaleira alcançar os seus tantos graus. Enquanto isso, assombrado pelas diretoras de um filme ruim que outrora protagonizei, tentava inutilmente baixar os meus próprios graus. Foi quando me lembrei de Mujica e também de meu pai, pois aprendi com eles a pensar melhor, a afinar-se com mais potência com uma cuia nas mãos. E como cantou Maria Bethânia, implorei ao deus dos mates para “que me levasse os meus fantasmas…”.
O chimarrão estava pronto. Peguei o livro do Huxley e continuei a leitura largada ontem à noite. Havia me identificado muito com o personagem Bernard Marx (sim, o nome não é por acaso). Bernard era um homem diferente de sua casta, mais baixo, mais inquieto e menos corpulento do que os Alfa-Mais. As pessoas, no tempo de o “Admirável mundo novo” (este é o nome do livro), eram produzidas em laboratório. Todos, já na concepção, tinham seus programas. Para os embriões dos Alfas, muito oxigênio; para os dos Betas, menos; e assim por diante, até chegar aos “de serviço braçal”, os inferiores, os Ípsilones.
Naquele mundo, as crianças, em determinado estágio, eram imediatamente apresentadas aos livros e às flores. Contudo, ao pegá-las, o chão lhes descarregava um forte choque a ponto de atordoá-las de maneira muito violenta. Havia um motivo para isso, já que assim elas cresceriam “com o que os psicólogos chamam de um ódio ‘instintivo’ aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente condicionados. Ficarão protegidas contra livros e botânica por toda a vida.” O repúdio a livros era para que não pensassem fora dos programas de castas que pertenciam; da botânica, para que não perdessem tempo nos campos a cheirar flores, o trabalho nas fábricas precisava ser prioridade.
Bom, isso me fez pensar muito no confronto da jovem deputada Tábata Amaral (PDT-SP), que numa reunião com o Ministro da Educação, Vélez Rodríguez, questionou a inabilidade do Ministro para com uma pasta tão importante. “Perdi meu pai para as drogas, mas se ele tivesse a chance de estudar, na certa estaria aqui”, disse mais ou menos assim a parlamentar. O tão mítico Admirável mundo novo neoliberal, de fato encontrou a sua própria Tábata Marx , pois ela sabe, nós sabemos, que a Educação, assim como os livros, são as únicas saídas para um verdadeiro renascer sem castas, saída feita de gente crítica e inquieta e engordada por muita consciência de classe, igualdade social e oportunidades. Por isso sofro, pago, assim como Bernard pagou e Tábata, certamente, pagará, por sermos rebeldes muito afrontosos neste velho mundo novo que nos quer esmagar.
Lembram-se do filme Matrix? Pílula azul, ou pílula vermelha? Em Aldous Huxley temos uma droga ainda mais poderosa: o “soma” – traduzindo para o nosso mundo, ‘fake news’. Então, prefere o “soma”, ou os livros? A escolha é sua, só não nos adoente caso optar continuar se chapando com a azul. Não dá para ser uma Tábata, muito menos um Bernard Marx com ela. Todos tomamos a vermelha, e isso não tem volta.
Mas agora chega. Minha chaleira já está sem água e não consigo mais pensar sem ela.
Bom dia!

Era isso. Espero que tenham gostado tanto quanto eu. Qualquer dia volto a publicar um texto do Dilso aqui.

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