Bolsonaro e o nazismo. Por Luis Felipe Miguel.

Luis Felipe Miguel é o professor da UnB que ofereceu uma disciplina de graduação sobre o golpe que derrubou Dilma em 2016 e que o ministro da educação da época (governo Temer) tentou proibir, gerando uma avalanche de cursos sobre o Golpe de 2016 em dezenas de universidades brasileiras, inclusive um aqui na UNISC, que eu coordenei juntamente com o professor Rogério Silveira (veja aqui).

Luis Felipe Miguel é um dos cientistas políticos mais atuantes e respeitados da Universidade brasileira. Ele coordena um Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – cuja produção pode ser lida no blog do Demodê e no site https://www.demodeunb.com/. Gosto muito de ler o que ele escreve e não sei nem explicar porque não havia ainda trazido nada dele aqui para o blog. Trago agora um texto rápido, mas, como sempre, muito bem fundamentado, sobre este estranho hábito da direita brasileira de dizer em público que o nazismo é de esquerda.

Bolsonaro e o nazismo.

Luis Felipe Miguel

É possível ser de esquerda e se opor a Stálin ou Mao, sem negar que eles também assumiam um discurso de esquerda. É possível julgar que a esquerda é o lado certo, sem achar que todo mundo que está à esquerda é necessariamente bom. A direita podia fazer o mesmo.

Há uma estranha obsessão – de Bolsonaro, Olavo de Carvalho e outros chefes da direita brasileira – por defender em público a ideia de que o nazismo foi um movimento de esquerda.

É um disparate, que só se torna possível no ambiente de “pós-verdade” em que caímos. Enquanto as chamadas “fake news” são mentiras destinadas a orientar a compreensão dos fatos correntes (e as consequentes escolhas políticas), a pós-verdade constrói narrativas amplas baseadas na desqualificação das fontes antes aceitas como legítimas de validação, como a ciência, a academia e a lógica elementar, a partir em geral de uma visão conspiratória.

(…)

A não ser para um insustentável nominalismo radical, que seguisse o moto de Humpty Dumpty, a personagem de Alice através do espelho (”cada palavra significa exatamente aquilo que eu quero que ela signifique naquele momento”), temos sempre que remeter o conceito ao uso consolidado, que permite que ele – a despeito de eventuais polêmicas pontuais – faça parte de uma linguagem compartilhada. E a clivagem direita/esquerda, desde que surgiu, se organiza em torno de duas questões.

A primeira é a questão da igualdade, que Norberto Bobbio, num livrinho famoso, afirmou ser a grande linha divisória. A esquerda defende uma sociedade mais igualitária. A direita afirma que a desigualdade é necessária, é inevitável, é a consequência automática das diferenças naturais entre os seres humanos, é o resultado incontornável das interações entre as pessoas.

Regimes que classificamos como sendo de esquerda podem produzir desigualdades terríveis, mas seu discurso sempre é igualitário. Já o fascismo e o nazismo são abertamente anti-igualitários. Pregam uma ordem social hierárquica. Afirmam que existe uma raça superior às outras.

A outra questão é o lado em que se colocam no conflito entre capital e trabalho. Os regimes nazi-fascistas foram apoiados pelas grandes corporações capitalistas, que financiaram os movimentos que deram origem a eles. Foram vistos como a salvação diante da ameaça representada pelo avanço da classe trabalhadora a partir da Revolução Russa – posição, aliás, do próprio Ludwig von Mises. Eram regimes de Estado forte, sim, mas que permitiam lucros crescentes, exatamente pela repressão feroz sobre os trabalhadores. Como disse alguém, enquanto a União Soviética estatizava as empresas, o nazi-fascismo estatizou o trabalho e cedeu-o aos capitalistas, que usavam a mão de obra escravizada dos prisioneiros.

Resolvida a questão conceitual, sobram apenas anedotas (…)

Continue lendo aqui, no blog do Demodé, ou então aqui, no blog do Luis Nassif, que também publicou o artigo.

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