Borracharia Bonfim. Observar, descrever. Um exercício no caderno de notas. 

Mudei de casa, finalmente. No trabalho sem fim de desencaixotar livros, pastas, documentos e papéis diversos, me deparei com uma folha amarelada dobrada em quatro. Quando a abri lembrei imediatamente do momento daquela observação. Não lembro de quando fiz as anotações, mas foi depois de ter saído de lá e continuado a viagem rumo a Nonoai. As notas começam com as informações detalhadas do local, mas não tem data, erro primário do aprendiz de antropólogo. Estimo que tenha sido em 1985 ou 1986 (nessa época eu começava o mestrado em Antropologia Social, em que iria pesquisar os lavradores sem terra acampados na Fazenda Anonni, no Rio Grande do Sul. Não escrevi a dissertação, fiz um documentário. O programa de mestrado não aceitou. Não terminei o mestrado, fui pra Londres fazer faxinas, entregar jornais e curtir half-pint de Guiness, mas essa já é uma outra história). Vamos às anotações:

“Borracharia Bonfim. Sentido Canoas-Tabaí, mais ou menos 10 quilômetros antes do trevo para Montenegro, antes do Arroio Eufrázia.

Um bar. Uma mesa de sinuca num avarandado de chão batido. Uma janela aberta mostra uma penteadeira de madeira envernizada e com o espelho trincado. Do lado, outra janela funciona como o balcão da venda.

Um velho com cabelos brancos e bigodes amarelados de nicotina, mais um manco de bigodinho aparado e um grandão sorridente de camisa xadrez e ouro no dente jogam sinuca por cerveja. Mais dois homens, encostados na janela-balcão, só bebem e olham o jogo. Uma menina, filha do dente de ouro, brinca por ali.

Um jovem de bombachas, camisa branca, faca na guaiaca e chinelo de dedo, vai sair a cavalo. Um potro sobreano, arisco, está solto correndo em volta. O homem manco larga o jogo, preocupado com o perigo de o potro tentar atravessar o asfalto, e procura uma corda para laçar o animal: “Ô borracheiro, não tem uma corda aí pra pegar o cavalinho? Senão ele atravessa a faixa, é muito novinho”. Acaba achando uma corda na sua moto (uma CG 125 com uns cinco anos de uso e um capacete laranja com três faixas pretas pendurado no guidon): “Mas é muito curta!”.

Acabam todos largando o jogo para “atender o causo do cavalo”. No fim, o rapaz a cavalo, depois que ninguém conseguiu pegar o cavalinho, tocou-o por uma estradinha de terra até o botar para dentro da cerca. Depois veio galopando, pegou uma cesta que estava pendurada numa árvore e disparou acostamento afora por uns 50 metros, aí atravessou a faixa e enveredou por cima do barranco no outro lado até desaparecer num mato lá longe.”

 

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